quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Tenho-me cobardemente esquecido…

Toda a afectividade começa e acaba

nos muros da nossa própria pele;

a ponte que vai de mim até ao outro

tem a medida desmedida do infinito.

O outro é tão só e sempre um outro não eu…

Circuncisão e pretérito mais que imperfeito…

Se vivo vivo todo e sempre cada dia

que passa à sombra de janela fechada 

agrilhoado ao sangue que carrego dentro

das minhas próprias e solitárias veias.

Antinomia… corda de ligação… máscara de toque de mão…

Embarque num sol de asa em cadente balancé

entre esta inexorável condição de só

e estes ossos encharcados de solidão própria.

Cobardemente me tenho esquecido…


Alves Bento Belisário in correntes de poentropia (Edições Apuro)

sábado, 20 de setembro de 2025

 Por entre réplicas de dor, 

em praças e alamedas sem cor, 

se aglutinam as madrugadas sepultadas ao redor, 

desnudadas ruínas e escombros de asa de condor, 

mutiladas nas raízes, nos frutos e na flor. 


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 

sábado, 6 de setembro de 2025

Estropiados pelos ponteiros 

dos relógios,  

os crepúsculos das fontes 

desenham 

em geometria perpendicular ao diapasão oblongo do vento  

movimentos de equinócio 

como quem se alquebra e corre 

a passo de declínio 

paralelo 

aos traços fartos das cinzas  

da memória.  


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 




segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Passo descarnado e desnudo

refém entre um fio de sol e um poema.

A carne dos dias assumiu contornos de eczema.

Ossadas de afectos gritam, deambulam… E é tudo

nesta curvatura das horas que nada traz que valha a pena.

A estrada das pétalas de luz é tão larga e tão pequena!

Rendem-se os pingos de vida à areia ressequida do deserto mudo.


Alves Bento Belisário in correntes de poentropia, Edições Apuro