Inscrevo-me
do lado de dentro das artérias
onde se acumulam
os pássaros
calcinados no suco visceral
dos discursos
anémicos e desnutridos.
Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita)
ESTAMOS TODOS CONDENADOS À PRISÃO SOLÍTÁRIA DENTRO DA NOSSA PRÓPRIA PELE, PARA TODA A VIDA – TENNESSE WILLIAMS
Doem-me os mil lares sonhados…
De todos eles tomo as feridas no regaço.
Plos poros da minha pele seus traços desenhados,
minha casa é feita de sexo de campos e flores em incestuoso
laço…
Feita de pérolas de sol e árvores grávidas de sémen de todas as
cores;
de pétalas de água e fragas e vento com maio embriagado de azul
devasso…
E de pólen de pássaros e bichos incendiados em orgias de mil
odores…
Doem-me os mil lares sonhados… O sangue de todos é meu
passo…
Alves Bento Belisário in correntes de poentropia (Edições Apuro)
Tombado
na urdidura asfixiante da memória
embalsamada,
na íris o sonho amniótico reinvento de poder
correr por entre o sangue
dos verbos
albergando nos intervalos
dos dedos
a luz madrepérola dos sorrisos
de mel e de leite.
Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita)
Nos umbrais ensanguentados
da noite, os carcinomas
das horas segregam
desmaiadas faúlhas
da memória.
À distância de um átomo,
cinzela-se o tecido dos dias
da tonalidade despigmentada
das autópsias de homens
avulsos.
Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita)
Na ensanguentada
pornografia
das cores
sustenho
e sustento
a insustentável
sustentabilidade
da floração
tangente
ao desejo.
Na ensanguentada
pornografia
das cores
sustenho
e sustento
a insustentável
sustentabilidade
da arquitectura
dos afectos.
Talvez
sustenha
e sustente
a medida
de três pontos
em ensanguentada
arquitectura ...
Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita)
Sabemo-nos vísceras
com as partículas contadasE sabemo-nos...
Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita)
Minha alma... Um mar em bulício na noite
que passa de mansinho, namoradeira.se levantou.
Alves Bento Belisário in correntes de poentropia, Edições Apuro