sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Inscrevo-me  

do lado de dentro das artérias 

onde se acumulam  

os pássaros  

calcinados no suco visceral 

dos discursos  

anémicos e desnutridos. 


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 


domingo, 24 de agosto de 2025

Nas dobras do dia 

em seu avesso, 

as árvores alinhadas à força no sobressalto 

acariciam  

as sombras em seus corpúsculos  

e suas vestes. 

 

Teceram as mãos 

em seus dedos 

o timbre das aves 

na sepultura.  


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Em horas anestesiantes 

de telhados de espuma, 

incendeiam-se  

os pássaros e os insectos, 

ébrios de sol e insurrectos, 

recolhidos nas cumeadas 

de minha retina. 


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 

sábado, 16 de agosto de 2025

Doem-me os mil lares sonhados…

De todos eles tomo as feridas no regaço.

Plos poros da minha pele seus traços desenhados,

minha casa é feita de sexo de campos e flores em incestuoso 

laço…

Feita de pérolas de sol e árvores grávidas de sémen de todas as 

cores;

de pétalas de água e fragas e vento com maio embriagado de azul 

devasso…

E de pólen de pássaros e bichos incendiados em orgias de mil 

odores…

Doem-me os mil lares sonhados… O sangue de todos é meu 

passo…


Alves Bento Belisário in correntes de poentropia (Edições Apuro)

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Alinhado  

na obliquidade da carne hemorrágica 

do útero dos entardeceres, 

transporto  

atado à retina  

os crepúsculos de ontem, de hoje  

e de amanhã... 


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Tombado  

na urdidura asfixiante da memória 

embalsamada, 

na íris o sonho amniótico reinvento de poder  

correr por entre o sangue  

dos verbos 

albergando nos intervalos 

dos dedos  

a luz madrepérola dos sorrisos  

de mel e de leite.  


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 

domingo, 10 de agosto de 2025

Nos umbrais ensanguentados 

da noite, os carcinomas 

das horas segregam 

desmaiadas faúlhas 

da memória. 

 

À distância de um átomo, 

cinzela-se o tecido dos dias 

da tonalidade despigmentada 

das autópsias de homens 

avulsos. 


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 

sábado, 9 de agosto de 2025

 Na ensanguentada 

pornografia 

das cores 

sustenho 

e sustento 

a insustentável 

sustentabilidade 

da floração 

tangente 

ao desejo. 


Na ensanguentada 

pornografia 

das cores 

sustenho 

e sustento 

a insustentável 

sustentabilidade 

da arquitectura 

dos afectos. 


Talvez 

sustenha  

e sustente 

a medida 

de três pontos 

em ensanguentada 

arquitectura ... 


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

A plasticidade 

agreste das tuas veias  

já os seios  

hirtos da voluptuosidade dos pássaros não acaricia  

com beijos rútilos 

do afoguear de abril 

às cerejeiras. 


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 


terça-feira, 5 de agosto de 2025

Hoje a contextura do dia 

eclodiu 

em sua urdidura com tons 

de flores

em despedida.


Jaz na praça 

ensanguentada da memória 

a tonalidade de asa 

de condor 

cruelmente degolada pla lámina 

pontiaguda 

do carrasco afecto.


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita) 

sábado, 2 de agosto de 2025

Sabemo-nos vísceras

com as partículas contadas

na conta-corrente dos relógios...

abelhas ruidosamente

zurzindo por entre casulos

de linhas

e formas e cores e figuras desmaiadas

no fluido cáustico

do respirar.

 

E sabemo-nos...

e abelhas...

e vísceras...

e cáusticos…


Alves Bento Belisário in Do Outro Lado Amniótico do Ser-se (Editora Oficina da Escrita)

Minha alma... Um mar em bulício na noite

que passa de mansinho, namoradeira.

Um querer não ter céu onde pernoite

e do engenho uma mão com rasgos de fiadeira

pra pintar em cadernos a voz intensa

dum rouxinol que canta das minhas veias,

na firmeza e na dor da sombra densa,

todo o sentir do mundo, emoções das ideias...

Mas nada tenho, nada posso ou sou;

do chão um jardim de flores

se levantou.


Alves Bento Belisário in correntes de poentropia, Edições Apuro